Biografia do Mestre Ataulpho Alves.
Depoimento gravado no museu da Imagem e do som.
"Eu nasci no dia 2 de maio de 1909 na cidade de Miraí, Zona da Mata de Minas Gerais, num domingo de sol, às duas horas da tarde, e meu nome completo é Ataulpho Alves de Souza". Com essas palavras, Ataulpho Alves começou o histórico depoimento sobre sua vida e sua obra para o Acervo de Música Popular Brasileira do Museu da Imagem e do Som. O relógio marcava exatamente 11 horas e trinta e cinco minutos da linda manhã do dia 17 de novembro de 1966. Fechado dentro do estúdio de gravações do Museu, longe daquela manhã de novembro, esplêndida em cores e em luz, um homem extraordinário rememorava os fatos de sua vida e cantava suas músicas. E a cada música cantada e a cada fato narrado, os quatro membros do Conselho de Música Popular que lhe arguíam (Ary Vasconcelos, Ilmar Carvalho, o saudoso Sylvio Túlio Cardoso e eu) enchiam-se de orgulho e de emoções. Nem era pra menos: ali estava respondendo às nossas ávidas indagações um dos monstros sagrados da música do Brasil, uma das figuras mais altas de todo um denso e riquíssimo caldo cultural que é o complexo de nossa música popular, caldo que é hoje já o rio caudaloso, a transbordar-se fronteiras a fora e inundar os ouvidos do mundo.
E o mestre nos contou e nos cantou tudo: a sua iniciação musical, ainda menino, em Miraí pelas mãos do velho violeiro Severino, seu pai. A sua chegada ao Rio em 1926, a cidade grande sempre sonhada, o seu primeiro emprego na Farmácia do Povo - onde lavava vidros e onde chegou a prático de farmácia. As suas primeiras composições, nas rodas musicais do Rio Comprido. O conhecimento do primeiro estúdio de gravação, levado por Alcebíades Barcelos. A sua primeira música gravada (Tempo Perdido) na voz de Carmem Miranda (em 1934). O incentivo que recebeu de Almirante, que logo cantou suas músicas. O seu primeiro grande sucesso "Saudade do meu Barracão", (em 1935). E a série de grandes sucessos na década de 30/40: "Saudade dela" (1936), "Boêmio" e "Errei, Erramos" (1938), "Sei que é covardia" e "Seu Oscar" (1939), "Bonde de São Januário" (1940), "Leva meu Samba" (1941), "Amélia" (1942) e a verdadeira história de como foi feita e o incrível fato de que ninguém quis gravá-la, à época em que foi feita. A criação das famosas pastoras, cujo nome foi batizado por Pedro Caetano. E mais outros sucessos: "Atire a primeira pedra" (1944), "Infidelidade" e "Vida da Minha Vida" (1947), "Sai do Meu Caminho" e "Vai na Paz de Deus" (1952), "Pois é" (1954), "Mulata Assanhada" (54/55), "Na Cadência do Samba" (1961), e várias outras. A polêmica com Mirabel Sampaio, que começou pra valer ( em 1955) e terminou na brincadeira em 1966. E finalmente uma música ainda não gravada (Laranja Madura, em 1966) e logo depois sua ultimíssima música feita: "Nem que Chova Canivete" que ele acabara de compor há uma semana do depoimento ( dia 11 de novembro, para ser exato).
A histórica gravação terminou às 12h e 55min; exatamente dois anos e cinco meses depois Ataulpho Alves morria inesperadamente (20 de abril de 1969), quando se recuperava numa casa de saúde, da operação de uma ingratíssima úlcera (por ele considerada de estimação... "Morre o homem, fica a fama", escreveu certa vez o mestre Ataulpho em um de seus sambas antológicos, como que a vaticinar seu epitáfio mais perfeito. E a verdade é cristalina: a fama de Ataulpho é definitiva equanto existir quem ame o samba neste mundo.
Ricardo Cravo Albin

Arquivo Municipal. Situado junto ao Terminal Rodoviário de Miraí (antiga Estação Ferroviária), neste local você pode conhecer um pouco mais da vida de Ataulpho Alves, bem como, fotos, fatos, alguns antigos pertences, etc.